Comportamento humano: pior do que o animal

Como Comportamentalista Animal, ao ser contatado por um possível cliente, sempre me preparo para o que der e vier. Minha larga experiência profissional já me ensinou que lidar com seres humanos é muito mais difícil do que lidar com animais, sejam estes ferozes ou enlouquecidos…

Alguns contatos são agradáveis e dão frutos imediatos. Essas pessoas são conscientes da importância do meu trabalho e querem, sinceramente, o melhor para seus cães. Elas têm consciência de que seus animais merecem ser educados e treinados e que esse tratamento diferenciado se refletirá de maneira positiva sobre a própria família. O relacionamento da família com um cão bem treinado, sem problemas de comportamento, obediente e feliz, é um relacionamento “redondo”, rola tranquilamente, com consequências positivas para ambos os lados – o animal e o humano. Ter um cão bem treinado em casa significa uma melhor qualidade de vida para todos: o animal ficará mais calmo, mais comportado, a família verá seus espaços serem respeitados, os jardins conservados. Enfim, será um lucro para todos.

Infelizmente, porém, nem sempre o primeiro contacto é tranquilo. Muitas vezes chego em uma casa, e encontro um proprietário que não entende bem o que faço e nem a importância de treinar seus animais. Então começam perguntas feitas, algumas vezes, com ironia ou que expressam descrença. As pessoas querem que eu afirme que os resultados serão imediatos, no período mais curto de tempo. Não entendem que o treinamento de animais é um processo educativo como qualquer outro, e que demanda tempo e dedicação por parte do treinador e do dono do animal. De maneira arrogante, quando se chega no quesito preço das aulas, o dono do animal recua e inventa desculpas pueris para não contratar o serviço. O profissional não é respeitado, não se reconhece o valor de seu trabalho, que demanda anos de formação e estudo, além de anos de prática para se alcançar um nível de conhecimento que permita enfrentar as mais diferentes situações e detectar os mais diversos problemas de comportamento dos animais. Infelizmente, devo dizer que esses proprietários pouco conscientes, muitas vezes, pertencem às classes sociais mais abastadas…

Vou contar uma estória que ilustra o que digo: certo dia fui chamado a uma casa situada no Lago Sul. A senhora que me contatou queria treinar seus dois cachorrinhos. Lá chegando deparei-me com uma cena muito comum: animais mimados em demasia, arrogantes e egoístas, brigando entre si por qualquer coisa, destruidores, sujando a linda mansão indiscriminadamente. Quando comecei a fazer minhas observações sobre o comportamento dos cães e a sugerir técnicas para corrigir os problemas detectados, começaram as críticas e as tentativas de desvalorizar meu trabalho. Perguntas de ordem pessoal também costumam ser colocadas, como uma espécie de avaliação do meu valor profissional com base no local onde nasci ou fui criado! O resultado final foi que consideraram caro o valor dos meus serviços.

Esse tipo de situação acontece devido a alguns fatores: 1) o pouco entendimento do público sobre a necessidade de educar seus animais; 2) a não-valorização do profissional que atua nessa área, que é visto como um mero “ensinador” de cães, e não como um psicólogo de animais, um especialista em comportamento.

É muito triste que isso aconteça ainda nos dias de hoje. Precisamos ir à fundo nas causas dessa desvalorização para melhor entendê-la e corrigí-la. Um comportamentalista animal é uma pessoa gabaritada, que estudou e conhece profundamente os animais e é capaz de estabelecer o diagnóstico de uma situação e do comportamento de um animal, seja cachorro, gato, pássaro e mesmo de animais selvagens ou exóticos, e providenciar a terapia adequada a cada caso, que irá corrigir o problema. Essas técnicas são repassadas aos donos dos animais, que são ensinados a como tratá-los de forma apropriada.

Precisamos lutar para que esses profissionais sejam reconhecidos e que seu trabalho, de grande importância para o bem estar dos animais e de suas famílias, seja entendido e valorizado.
Para tal é necessário a conscientização do público da importância das terapias comportamentalistas e da valorização dos profissionais que atuam nessa área, evitando-se, assim, constrangimentos para aqueles que trabalham nessa importante profissão.

Por Robert Bajbouj – Técnico em Comportamento Animal e Suzana Maia – Assistente – Tel. 98535 1976
Foto John Download
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